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04 novembro 2010

SURPRESAS DA VIDA

“A vida humana não tem só um nascimento, só uma infância, é feita de vários renascimentos, de várias infâncias.” Francesco Alberoni


Foi Heráclito de Éfeso quem disse: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre por ti.” Ou seja, tudo muda a cada instante. Por dentro, por fora. E inspirada em tal ensinamento, escrevi meu primeiro miniconto: “Sobre as palavras do rio”. É um diálogo entre lírio e bem-te-vi, onde a flor comenta com o belo pássaro:
— Alguém já lhe contou que não se vê duas vezes o mesmo céu?
— Sim, aprendi ainda bem jovem.
— Então, como pode continuar cantando? Que motivos tem para se mostrar tão feliz?
— E por que mudaria meu jeito de ser?
— Pelo simples fato de saber que tudo que nos cerca deixará de existir.


E ao longo da narrativa, vem a resposta: O futuro é incerto, mas quando se existe plenamente, um simples instante pode durar uma eternidade. É assim que nomes e histórias se tornam imortais. Não se esqueça, viver é um ato de renascer a cada momento.
No final de 2004, apenas iniciava minhas publicações e fiquei surpresa quando esta foi selecionada para uma antologia. Eu empreendia meus primeiros passos como nova autora, entrelaçando palavras e sonhos.
Desde menina, sempre tive uma intensa ligação com o céu. Principalmente com a noite. Gastava horas e horas na rede de minha antiga casa, admirando as estrelas. E ainda tão pequena, questionava o sentido de tudo. Como se a visão do horizonte, pudesse ampliar meus pensamentos. Trazer respostas. Aquietar o coração.
Continuei assim. Certa vez, durante um curso de inglês, conheci uma simpática médica do Rio de Janeiro. Ela veio para BH estudar na UFMG. Na época, eu contava 18 anos. Ao ler alguns de meus poemas, disse que eu abri uma janela sem volta. “Ih... tá perdida! Nunca mais vai olhar as coisas do mesmo modo”. É verdade, quando filosofamos, conhecemos um outro olhar. Mas, filosofando ou não, a vida é uma constante busca... um ciclo de perdas e encontros, frustrações e expectativas, finais e recomeços.
Ontem eu estava distraída no ponto de ônibus pensando nas circusntâncias que nos levam a lugares, pessoas, sentimentos, reflexões. Confesso que, às vezes, não sei porque escrevo, se devo continuar. Será que meu trabalho tem propósito? Sabe aquela história de um dom e um fardo... pois é. Quando a inspiração se despede, mudo de planos, ideias, redesenho os objetivos. Sem as vozes dos livros, a vida se torna menos mágica, mas também mais tranquila, mais possível.
Enquanto eu seguia tal linha de raciocínio, uma senhora se aproximou, fixando-me atentamente: – Você é a Bruna do “Além das Nuvens”, não é?
Para quem não conhece, ela mencionou meu livrinho de bolso, um dos primeiros que publiquei. Respondi surpresa – Sim, sou eu.
— Nossa, acho que já decorei seu livro. – ela começou a interpretar cada conto e, imaginem, a citar algumas passagens. Seus olhos brilhavam, quando afirmou tão séria: seu livro me faz refletir, me faz tão bem. Sempre o indico para todos que conheço. Você fala de forma simples, mas toca o coração da gente. Seu livro é a vida. A vida na fala do rio, do bem-te-vi, do lírio, da mariposa... Dei um de presente para o meu dentista, — continuou — quando nos reencontramos após uma semana, fiz questão de perguntar: — e aí, você leu?
— Sim. – ele respondeu e fez um comentário sobre um dos contos, “A mariposa e a borboleta”: Como podemos admirar o dia, sem conhecer a noite?
Vou transcrever a passagem à qual ele se referiu:

“A mariposa fitou a borboleta pela primeira vez. O azul de suas asas perdia-se num infinito de cores mágicas e, a graciosidade de seus movimentos, fez com que se sentisse ainda pior. A criatura ao seu lado era a imagem de um céu límpido e cintilante, enquanto ela trazia nas asas aveludadas e escuras, um horizonte enegrecido e sem perspectivas.

— Fácil você falar, enquanto parece o sol, sou a própria noite. Significa esperança e liberdade e eu, mau presságio. As pessoas lhe admiram, mas me repelem, temem minha presença, sou feia, bruxa e tantos outros nomes dos quais já me esqueci. Não vejo motivos para continuar, não tenho razões para existir.
— Se não tivesse razões para existir, não estaria aqui. Agradeço os elogios, mas me reservo o direito de fazer os meus. Veja, apesar de suas asas serem negras, são pontilhadas por pequenos círculos de ouro. Um tom que me lembra as estrelas com que nos brinda o anoitecer.
— Está brincando comigo?
— Claro que não, estou apenas afirmando que a noite também tem sua beleza e não seria possível admirar um dia de sol se não a conhecêssemos
.”

Minutos se foram. Quando nos despedimos, enxerguei meus textos de outra forma. Puxa, um livro meu realmente fez diferença para alguém e, de alguma forma, a vida fez com que eu soubesse, pois, do nada, aquela senhora se aproximou de mim e aquietou meu coração.
Mais uma vez, repenso Alberoni. De fato, a vida é feita de vários renascimentos, renascemos a cada segundo. Eu acabava de renascer ali, na tarde de uma quarta-feira aparentemente comum, com a certeza de que um dia, um lírio nasceu à margem do rio e alçou voo nas asas de um bem-te-vi.

ROMANCE SOBRENATURAL

Eu não escondo de ninguém que adoro romance sobrenatural.  Para quem é fã como eu, eu recomendo uma série Coreana que assisti na Netflix:  M...